domingo, 4 de dezembro de 2011

Distância...

‘Introdução para a invisibilidade social’


                                                   “A cada ciclo da lua vou desaparecer...” (Epopeia)


Hoje acordei indisposto para o trabalho. O amargo na boca, o vento batendo na janela do meu quarto e o toca discos que toca um vinil que em chiados roda no final do disco. Levantei e fui desligar, e lá estava aquele vinil velho com a capa desgastada pela ação do tempo. Algumas boas lembranças me visitaram. Nostalgia de um tempo de solidão, onde meus únicos grandes companheiros, além dos discos de vinil, eram os livros. Mas como anotou Nietzsche no seu Ecce Homo: “Minha humanidade é uma constante superação de si. – Mas tenho necessidade de solidão, isto é, de convalescência, de regresso a mim, do sopro de uma brisa leve que passa livremente...”. Já a alguns dias ando praticando. Sei que não é fácil sucumbir fisicamente, mas estou tentando. Já tive alguns progressos. Lembrando que, desaparecer não é morrer. Creio que talvez seja até impossível explicar. Para alguns que já assistiram a película ‘Casa Vazia’ do diretor coreano Kim Ki-duk, percebendo certa metáfora que o filme traz, talvez compreendam um pouco dessa minha prática (e seus motivos) – levando em conta as entrelinhas da linguagem. Estou e não estou. Sou e não sou. Ando longe. Distante. Acordo na distância & é o vento quem me desperta. Em lentos movimentos vou desaparecendo. Alguém ainda me vê (...). Um lobo na estepe dessa cidade tão cheia? Ou um falcão que se arrisca em vôos rasantes? Minha imagem colada num canto da sala, envelhecida, carcomida pelo tempo. Sou a capa desgastada do meu vinil que em chiados roda no final do disco. Estou distante de mim. Distante de você – & ao mesmo tempo tão perto! (como estou só e ao mesmo tempo acompanhado). Há um vazio nesta cidade tão cheia. Se as escadas que nos elevam à eternidade sempre estão a nossa espera, porque não subir por elas? Se ando na contramão, é porque os caminhos traçados já não me atraem mais – eles são tão óbvios e limitados! As palavras que eu tenho para ‘lhes’ dizer me escapam pelos olhos e ninguém vê – só vocês, meus maiores motivos! Meus olhos noturnos de tristezas e alegrias torpes! E eu desapareço por alguns instantes (lembrem-se, estou praticando!). Logo volto! Me esperem com aquele café bem forte, seus abraços de vida & com o poema que eu leio em seus olhares...

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Outra canção...
























Meu amor, não tenha medo! Estarei te esperando na próxima curva, com meu violão e minha voz desafinada. Com a garrafa de rum para nos proteger do próximo frio que virá, alguns charutos e um livro de poesias de Neruda ou Rimbaud. Cantaremos juntos e torpes, com os nossos sorrisos plenos, esse tempo que tanto nos distanciou, que tanto nos deixou tristes e sós. Cantaremos canções de vida, canções para a eternidade. Cantaremos à nossa própria eternidade. Querida, não tenha medo, estarei contigo em todos os abismos que você, por acaso, venha a cair. Encontraremos dentro deles, na profundidade, essa nossa canção. Já estamos a compondo, ainda não percebeu? Existe um pequeno livro azul, nada excitante se formos considerarmos sua capa, seu papel, sua edição, mas que dentro dele, encontramos verdades tão duras e profundas que o medo passa a ser compreendido e assim, amenizado ou até mesmo findado. E nele está escrito: “Surgem dias nos quais o coração sente tão terrivelmente a falta de saída, que o surpreende, como uma pancada na cabeça, a idéia de que já não poderá ir adiante”. Artaud ao escrever isso no seu ‘Van Gogh, o suicidado pela sociedade’, fez poesia, mesmo tratando de um tema ‘terrível’, que também gera medo. Assim meu amor, podemos fazer poesia juntos também “Pois o critério do bisturi separador não depende da amplitude nem do atrito, mas do mero vigor pessoal do punho”. - escreveu Artaud no mesmo livro. Portanto, façamos de nossa cantiga, de nossa poesia, de nossa história, a própria eternidade que já demonstramos num entrelaçar de dedos. Enchemos nossas mãos de sorriso e vida. Um encontro protegido com nossos sentimentos mais puros e profundos, mais sonoramente intensos. Já concordamos com Rimbaud e a nossa eternidade também é ‘o mar ao sol’. Já nos protegemos do açoite tirânico das convenções sócio-morais. Já fomos além, agora estamos aqui, com o mesmo sorriso estampado nos rostos, com o mesmo vigor e aspiração de ser e estar. Os mesmos. Aqueles que principiaram e nunca vão acabar. Meu bem, esta noite, ao dormir, não esqueça de descansar seus medos... & deixe a janela encostada e a luz apagada que eu passo pra te visitar entre um sonho e outro, entre uma realidade e outra... Amanhã faremos outra canção sem medo nem culpa - com ‘aroma’... Até logo! 

hgs.

(as imagens dos dois textos acima são do filme 'O sacrifício' de Andrei Tarkovski - indico!)


Um comentário:

Marcela disse...

Belíssimos!