segunda-feira, 24 de junho de 2013

Manifestações & manifestanças: entre máscaras, mascarados e mascaramentos...

Podem existir quatro rostos (mais identificáveis) por detrás de uma mesma máscara. O primeiro, de olhar utópico, astuto, poético, amplo, politizado, crítico, libertário, posicionado, com vistas para transformações. O segundo, de olhar privado, interesseiro, dogmático, doutrinador, reacionário, oportunista, ludibriador, usurpador, corruptor. O terceiro, de olhar medíocre, mesquinho, estagnado, formal, burocrata, despolitizado, cego.  O quarto e último, de olhar distante, alheio, indiferente. Ambos podem vestir ou vestem máscaras. E as máscaras se apresentam de várias formas. Algumas, inclusive, tem o formado do próprio rosto. Mas a máscara de que venho falar é uma que está muito em evidência atualmente, principalmente com as ondas de manifestações que sacodem o país. Trata-se da máscara de um personagem de um HQ de Alan Moore chamado “V de Vingança”, onde o personagem mascarado ficou popularmente conhecido como “V”, e o quadrinho acabou virando adaptação num filme de sucesso. Um grupo (?) que se intitula Anonymous tomou essa máscara como símbolo de seus recados e ações mundo afora. Porém, outros grupos (ou pessoas sem grupo algum) se apropriaram da mesma imagem, usando-a para variados fins e práticas. No entanto, no início dos anos de 1980, antes mesmo de toda essa movimentação de hakers e ativistas midiáticos, um teórico de pseudônimo Hakim Bey já havia escrito sobre a força e o poder informativo e organizacional da rede (ou seja, da internet, web e redes sociais, antes mesmo delas serem o que são hoje), dando deixas de seu uso em levantes e práticas afins, desconstrutoras de ordens reacionárias e deterministas.

Estamos no meio de um turbilhão de informações e forças opostas que em alguns aspectos ou momentos se atraem, formando um tornado onde tudo e nada se misturam. Aí surgem ataques, defesas, posições e/ou a falta delas sobre os mais variados aspectos, todos lutando por espaços onde possam por em prática suas formas de pensar – o que, de certo modo, Karl Marx chamou de relações de poder. Os conflitos, as contradições e as dialéticas cotidianas, transformadas em informação e comunicadas, alimentam a rede, e as ruas acabaram nos últimos anos, sendo palco da manifestação dos anseios humanos, sejam eles individuais ou grupais, com isso. E entre posições e imposições, o palco das manifestações acaba também sendo palco do espetáculo midiático e das confusões e convulsões da rua. Mas isso não é novidade alguma. Temos vários episódios históricos que assim se sucederam.

Os Zapatistas, sob a inspiração da figura ‘sem rosto’ do subcomandante Marcos, também tem seus rostos cobertos, onde, quando do incrível levante de 1994, quando questionados sobre isso, deram a resposta em coro com a frase: “Somos todos Zapata!”. Muitos anos antes do Zapatismo contemporâneo, o próprio Emiliano Zapata, confundia seus perseguidores reacionários trocando de papéis com seu irmão gêmeo. Assim podia, além de confundir seus inimigos, atuar em duas frentes ao mesmo tempo.


Símbolos são utilizados e feitos território ao longo da história. Peguemos como exemplo um dos símbolos da esquerda latino americana, a imagem de Chê Guevara. Imagem essa que foi apropriada ideologicamente para o ‘espetáculo’, por altas marcas e grifes do capitalismo. Algo semelhante acontece hoje com a máscara do ‘V’, só que, ao invés da bandeira de Guevara, temos a máscara, e ambos estão expostos nas vitrines do ‘capitalismo camaleão’, a venda. Esse sistema tem tanto poder e é tão dinâmico que se mescla, se funde, se amplia, se apropria e transforma símbolos, ideias e práticas, utilizando-se deles para sua própria manutenção. Como uma grande mãe que abraça todos os filhos do mundo (desde que esses não pertençam a ‘categoria’ dos marginais, dos indesejáveis: povos indígenas e caboclos - entre outros que ‘não consomem’ a maneira dos demais – os demais que também podem ser as chamadas ‘minorias’, mas que se enquadram no consumismo e espetáculo que o sistema dispõe). Indígenas, caboclos, afro-pagãos, malditos e marginais de toda a estirpe estão fora dessa ‘lógica consumista’ do capital territorializante e permissivo. Ser território, localização, é ser prato cheio para esse sistema, pois ele, sendo camaleão, quando não consegue adequar os diferentes e ‘inquietos’ a si, acaba se adequando a eles.

Julian Assange (mentor e principal nome do Wikileaks), hoje, talvez, o grande nome da informação livre mundial, pagou preço alto por resistir de ‘rosto limpo’ aos trâmites da jogatina midiática (e penso que deveria ter mais apoio dos ditos lutadores por um mundo livre). Hoje, Assange vive na dependência de apoios e correndo riscos, tendo que se privar de muita coisa para prosseguir na sua árdua forma e escolha de resistência. Talvez, se ele não tivesse rosto, a exemplo do Coringa (personagem de HQ do Batman: o cavaleiro das trevas, que também virou filme), pudesse atuar de outra forma e livre do policiamento dos ‘sistemas controladores’ mundiais. O Coringa, na sua simbologia, é um ‘agente do caos’, a carta do baralho que parece contraditória, mas que no fundo, contradiz, assim como um dos grandes pensadores modernos (que pensa para além da modernidade), F. W.  Nietzsche se auto percebe, sendo ele próprio, autor e ‘personagem’ na sua obra filosófica: “Não sou contraditório, sou contraditor”. Hakim Bey, também vai além da identificação, do território, da localização, assim como o Coringa e o grande ‘artista social’ contemporâneo, Banksy, que desconstrói paisagens com sua arte urbana, fazendo com que o olhar do transeunte sobre o sistema, a cidade e sua vida nela, vá além da estreiteza de uma visão acostumada e convencionada, obediente as velhas formas e modos de se perceber e viver em sociedade.



Acontece que, assim como o Estado capitalista dito democrático (caracterizado pelo iluminismo de cunho maçônico-protestante-liberal-burguês, intensificado pela Revolução Francesa e depois reformado pela social democracia) se apropria do discurso (e em certa medida, até de algumas práticas) da dita ‘esquerda socialista’, os símbolos de resistência também são vulneráveis a essa apropriação, e muitos deles passam (a exemplo do ‘discurso revolucionário’ de esquerda), a fazer parte do repertório da chamada ‘direita capitalista’, que predomina e reproduz a ordem social vigente.



Esse sistema é tão dinâmico e bem arquitetado que, ao tempo em que exclui, inclui. Ou seja, quando não consegue dar conta da exclusão, tem a possibilidade de incluir, e mesmo assim manter seu poder de mando ‘soberano’, e até a esquerda opositora desse sistema, acaba, quando conquista (ou ganha) algum poder institucional nele, utilizando-se das suas estruturas e modos, das suas facilidades e regras para poder se manter. Então amigos, a problemática é mais profunda do que se desenha no jogo ideológico por conquistas de espaço (ou território), e não basta a tomada de poder ou sua reformulação, é necessário pensar e ir além disso (para quem sabe um dia, estar), mexer com os valores, modos, concepções e formas de se pensar e fazer, e isso está para além da economia, da infraestrutura social. É preciso que se perceba e se desconstrua, em certa medida, a cultura humana, ou seja, a superestrutura precisa sentir também o abalo, pois transformar a economia apenas, se comprovou, não basta – presenciamos uma problemática sociocultural.



O subcomandante Marcos é ‘sub’ pois transfere ao coletivo o comando social, e seu rosto, sua identificação não é o elemento que vai torna-lo um zapatista. Com seu ‘rosto limpo’, portanto, identificado, ele passaria a ter uma marca, um território localizado, policiado, e assim, se tornaria presa fácil. Quando os zapatistas afastam a identificação de si, cobrindo o rosto, não sendo mais indivíduos fragmentados, passam a fazer parte de um todo maior (uma ‘causa’), e a partir disso, ter uma só voz, onde o ‘eu sou’ continua existindo, mas onde o ‘todos somos’, adquire outra proporção, e isso se justifica quando o zapatista por ‘não ter rosto’, indagado por um jornalista que lhe pergunta: “Mas quem é você?”, responde: “Somos todos Zapata!”.

Subtraio disso tudo, amigos, possibilidades e não certezas ou convicções – que fique claro! Prefiro, neste caso, assim pensar, consciente de que, a ‘confusão’ das máscaras, dos mascarados e dos mascaramentos, tem dois ou mais caminhos: um, o de gerar novos olhares, mais amplos ou irrestritos, não direcionados a uma localização ou território dado, mas, descaracterizado de ‘ser um em si mesmo - um eu’, em pró do conteúdo (onde todos tenham uma voz que compreenda a voz de cada um), o que poderá se ampliar em possíveis e reais mudanças; outro, o de confundir e apenas tornar tudo um grande espetáculo (e de certo modo, assim já não o é?). Os demais caminhos, como diz o poeta, ‘se fazem caminhando’.


obra de Banksy