quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Leituras do Cotidiano - 22/08


Xapecó, parabéns! Por sua memória...


















Xapecó, parabéns pelos seus filhos e pela nobreza deles. Filhos que estavam aqui antes mesmo da colonização e seus coronéis. Filhos de um Xapecó onde a violência não era rotina nem naturalizada. Tempo de índios e caboclos, e apesar dos coronéis, de euros-descendentes dignos de pisar neste chão (muitos ainda pisam). Xapecó onde havia um estádio chamado ‘Regional Índio Condá’, e que hoje, já sem o Índio, de ‘estádio’, virou ‘arena’. Arena que me remete pensar - historiador por (de)‘formação’ acadêmica - nas pelejas entre leões e gladiadores no ‘panis et circenses’ (do latim, ‘pão e circo’) do antigo Império Romano. Xapecó que já teve um dia, um significado em seu nome, que, ainda com ‘X’, apontava para um caminho: ‘o caminho da roça’, e que perdeu esse simbolismo por um ‘Ch’ ideologicamente implantado. Xapecó que tem seus primeiros habitantes (nativos), ainda resistentes, em suas aldeias ou perambulando pelas ruas asfaltadas por um progresso mecânico e frio, dos negócios e arranjos políticos, vendendo artesanato ou bebendo cachaça para suportar todo esse ‘frio’. Xapecó de um ‘linchamento que muitos querem esquecer’ - e que outros jamais poderão, pois nem conhecem. Xapecó de coronéis e mandonismos, de suicídios homicidiados mal resolvidos e mal explicados, confundidos, feitos novela – e memória (sempre ela, a eterna!). Xapecó que no segundo dia da semana que antecede seu aniversário, infelizmente, acorda com mais uma página da sua história tingida de vermelho. Apesar de tudo, ainda teremos o que comemorar (?). O orgulho que sai de um riso plástico e vai dar no crescimento comercial, industrial, material desse ‘Velho Oeste’ das estórias em quadrinho ou de algum bang-bang ‘a La Tarantino’. Braços fortes construíram essa história. Mas também, personalidades fortes, vivas ou mortas. Almas altivas, festivas e almas penadas – e a memória (ela!). Memória que não morre nunca, pois está viva em todos os ventos que sopram do passado e batem nos rostos dos habitantes mais leais e ativos desse lugar. E eu, filho do vento e da chuva, feito também de história, pensamentos, risos, chagas, penas e memória, me compadeço do meu tempo, como do tempo passado, pois sei que o tempo é isso, um ontem e um hoje bailando dentro e fora da música, em passos diversos, num baile ora divertido, ora macabro. Como tantos outros, também sou filho dessa terra, mas, mais que isso (e deixando de lado o orgulho forçado), sou filho desse país que se acredita ou pensa nação, filho do mundo, cidadão da terra. Xapecó, parabéns pelos seus dias e suas noites, pelas curvas da sua história, por sua, que também é nossa memória – sempre ela...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 22/08/2013



2 comentários:

cristiano ludwig disse...

Parabéns, ótimo texto!

Deise disse...

Muito bem escrito, perfeito.